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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Baladi

Baladi é uma palavra que tem vários significados. Um deles está relacionado a um lugar de origem, ao pais, estado ou cidade. Se digo "Ana baladi Brasil", estou dizendo "Eu sou do Brasil". A palavra Baladi também diz respeito a algo tradicional, da cultura de um povo, de uma região. Assim sendo, algo que é considerado baladi em uma região do Egito, não o é em outra. O que mais nos interessa, porém, é a dança Baladi. Mas ela tem estreita relação com esses outros significados.


"A forma mais antiga de dança solo no Egito é o baladi. Pode ser vista em meio a pessoas que se mudaram para o Cairo para conseguir melhores empregos ou comercializar seus produtos, vindas de diversas cidades do Egito como El Mahalla, El Kobra, Alexandria, Luxor, Aswan, Asyout, Quena, Banha, Damanhour, Domiat, Sohag... Essas pessoas sentem muito orgulho de suas raízes e portanto ainda são muito ligados a elas, e é isso o que eles sempre irão chamar de “CASA”, a cidade ou vilarejo de onde vieram. Eles dizem que um dia ainda irão retornar a “EL BALADI”, ou seja, meu lugar, minha terra natal, meu país. “BALADI” é também um termo usado para se referir às populações rurais, bem como a tudo o que é feito por aquelas pessoas."


Eu poderia aqui continuar escrevendo a respeito do baladi, a partir de minhas leituras  e de workshops já feitos. Minhas palavras, porém, nunca chegariam a qualidade e beleza dos textos de Hossam Ramzy. Então, para quem deseja estudar o baladi, compartilharei aqui dois textos de Hossam sobre o tema. Um deles, "Zeinab", está na forma de uma narrativa, muito bem estruturada, que nos leva a uma viagem, possibilitando a compreensão sobre essa dança e sobre a cultura egípcia, quase uma vivência. O segundo texto, "Raqs al Baladi", está na forma de um artigo, porém está em inglês. Ambos estão bem interessantes! 

Bons estudos!!!

sábado, 21 de dezembro de 2013

A Núbia

Como ainda não tive a oportunidade de conhecer o Egito e essa região encantadora, vou fazendo minhas pesquisas daqui de casa mesmo, sonhando com o dia em que me seja possível estar lá. E nessas pesquisas, cheias de curiosidades, encontrei um texto sobre o local em si e algumas imagens e vídeos que achei muito interessantes. Vou compartilhar parte do texto aqui e o link através do qual é possível acessá-lo na íntegra!

A Núbia hoje
Estando no Egito, conhecer o povo núbio era uma exigência ontológica. Desde pequena as imagens dos escravos negros guardando as divindades egípcias me enchiam de estupor e curiosidade. Eram sempre mais dignos e belos que os próprios faraós que guardavam. E as mulheres, de pele retinta, destacavam-se como deusas, cortejadas e desejadas pelos filhos de Amon-Rá. Os núbios, mais do que escravos, eram um povo que tinha cultura e língua próprias e além de entregarem seus corpos, também eram sangrados das riquezas de sua terra, como o ouro e o marfim. Mais tarde, já adulta, fui saber que também houve um tempo em que governaram o Egito, não mais escravos, mas faraós, deixando sua marca indelével na cultura daquele esplendoroso país.  Assim, quando o pequeno barco que navegava pelo Nilo aportou em Assuã eu me preparei para um encontro desde há muito esperado. Não foi em vão.
A região núbia já se difere do restante do Egito pela cor. Não só do povo, que tem a pele negra, mas da cidade em si. Tudo vibra. As casas, as pessoas, as coisas. O artesanato é muito telúrico, com desenhos que imitam peles de bichos como os jacarés e as cobras. Pode-se perceber que os animais tem um valor inestimável. Eles estão em tudo, nas imagens pintadas nas casas, empalhados nas salas, ou mesmo vivos, circulando pelas residências como seres da família. O camelo é quase sagrado, indispensável para o transporte nas regiões de deserto. Já no rio, o que impera é a faluca, um tipo de barco à vela usado desde os tempos mais remotos, sempre navegando ao sabor do vento.
A cidade de Assuã, chamada de “a pérola do Nilo” é grande e cosmopolita. A paisagem é incomparável, bonita demais. Há uma classe média que vive bem e cuida da cidade, mas são as pequenas comunidades já na região do deserto, que mostram a cultura núbia na sua mais completa tradução. Para chegar até lá é preciso andar pelos menos uns 40 minutos no lombo dos camelos, aproveitando a paisagem exuberante e contraditória de rio e deserto, lado a lado. Pelo caminho, a toda hora passa um menino, voando, sobre o camelo que se faz veloz em suas mãos. No povoado, tudo é cor. As casas seguem um modelo bastante típico do povo núbio, arredondadas, com abóbodas e imensos pátios. Cada uma delas é pintada de uma cor diferente, vibrante. Não faltam os murais, espalhados por toda a aldeia. Neles, o retrato do cotidiano, gente trabalhando, sobre os camelos, plantando, cuidando dos animais, mulheres nos afazeres domésticos, paisagens. Uma lindeza.
Uma das práticas mais antigas é o tradicional chá. Nenhum visitante passa por uma comunidade núbia sem entrar e partilhar desse líquido saboroso. Na casa onde fomos recebidos, os cômodos eram grandes, coloridos e arejados, apesar de serem de chão batido. Na sala, muitos animais empalhados. “Eram companheiros muito amados”, diz a mulher. No meio do pátio, um poço com jacarés, animal também muito estimado por ali. Percebe-se uma harmonia entre gente, bicho e espaço geográfico.
O povo é pobre, vive do artesanato, dos passeios de camelo e de uma modesta agricultura de subsistência. Mas, o que impressiona é o cuidado com a cultura. Na escola da comunidade, os professores ensinam o núbio, língua originária, que é uma das formas mais seguras de manter o modo de ser. Também não são poucos os artistas que colorem as casas com as cenas do seu mundo, muito típicas.
A relação com o Egito segue sendo de integração, mas sempre com esse sentimento único de povo autônomo. Na política contemporânea, chegaram a amar muito um egípcio: Gamal Abdel Nasser, o qual inundou 500 quilômetros de suas terras para fazer o maior lago artificial do mundo: o lago Nasser. Desses 500 km, 350 pertencem ao Egito e 150 ao Sudão. Na época, com a promessa de conter as cheias sistemáticas do Nilo, Nasser conseguiu convencer centenas de famílias (10 mil pessoas) a sair de suas terras, garantindo novas casas, novas terras e também a realocação de 16 dos 17 templos que estavam nos espaços a serem alagados. Hoje, ao falar sobre aqueles dias, os núbios que trabalham com artesanato no embarque para a ilha onde está o templo de Filae seguem acreditando que fizeram certo em confiar no político de esquerda. “Ele foi melhor que tivemos”.
O lago nasceu da construção da Alta Represa, um gigante de quatro quilômetros de largura por 11 metros de altura. As pedras de puro granito que foram usadas para a obra poderiam erguer mais de 147 pirâmides. Com a represa, Nasser buscava proteger o Egito da seca e das inundações. Conforme os moradores locais, isso foi conseguido. “Agora podemos fazer três colheitas no ano, mesmo que o barro bom do Nilo não consiga mais passar”. Segundo o egiptólogo Abdel Aziz, como é da cultura núbia cultivar aquelas terras, muitas das famílias que foram embora estão voltando e o governo tem garantido tratores e terras, principalmente aos jovens.
Também são os jovens que dominam os barcos que fazem os passeios no lago e levam turistas para ver os templos. De certa forma, no Egito em geral, o turismo ainda não é dominado por poucas empresas. Há uma grande divisão de tarefas, todas cumpridas por pessoas físicas ou pequenos negócios. O que se nota é que cada um ganha seu quinhão no grande bolo turístico. No ancoradouro que leva a ilha do templo de Filae, são muitos os barcos e apesar da grande movimentação, os trabalhadores se organizam de tal forma que cada um deles sempre tem um freguês. Esse templo, dedicado à deusa Isis, é um dos que foram removidos do seu lugar original, pedra a pedra. Foi o último resgatado da água. Segundo conta Abdel Aziz, o trabalho de remoção dos 16 templos levou oito anos e ocupou a força criativa de representantes de 48 países. Por conta dessa ajuda internacional quatro dos templos foram levados para fora do Egito. Um está na Espanha, um em Nova Iorque, um na Alemanha e outro na Holanda. “o governo egípcio ofereceu como um presente”.
No início desse século a história desse povo ancestral sofreu mais um baque. O governo do Sudão, que tem apoio dos Estados Unidos (Sudão é um espaço estratégico para o império) construiu outra usina hidrelétrica no Nilo, cerca de mil quilômetros acima da barragem de Assuã, criando um lago de 170 quilômetros de comprimento. Esse lago inundou milhares de outros sítios arqueológicos ainda inexplorados, que contam da cultura núbia. Com isso, grande parte das belezas do apogeu do povo núbio seguirá soterrada. Pirâmides, grandes estátuas, enfim, a prova da grandeza de uma nação que aglutinou o comércio na região por séculos.  Ainda assim, na grande curva do Nilo, ao sul, podem-se ver as ruinas da antiga capital, Nepata, que, no mundo antigo, foi tão vibrante e cosmopolita como é hoje Assuã.
O fato é que, apesar de ter parte do seu passado destruído ou escondido sob as águas, o povo núbio segue reverenciando sua cultura ancestral, mantendo um jeito peculiar de ser, vivenciando um equilíbrio natural com o ambiente. Deles, trouxe uma bonequinha de madeira, que representa a mulher local, a fertilidade, a fartura. Ela me observa, todas as manhãs, com seu olhar risonho. De mim, ficaram dois brincos de prata, ofertados à pequena anfitriã, Sara. Enternece meu coração saber que naquela margem do Nilo uma garotinha de pouco mais de 10 anos se enfeita no espelho das águas, cantando uma velha canção, com uma belezura que já me enfeitou. A ligação com a sorridente menina núbia é a concretude de um velho desejo, quando eu, debruçada sobre surrados livros de história, sonhava em encontrar seu povo de valentes e belos guerreiros. Encanta-me saber que eles estão lá, de pé, gigantes, tão lindos como nos tempos dos faraós.  E livres, fazendo hoje, a nova revolução egípcia!
Que o segundo turno das eleições ponha no poder o que for melhor para o Egito.
Fotos: elaine tavares
Mais imagens:



Vídeos:




A Dança:
"A dança e a música dessa região semelhantes ao estilo encontrado na África do Sul. O Rio Nilo está muito próximo dos núbios e influenciou suas vidas e música, que possui um ritmo mais relaxado. Normalmente os núbios dançam em filas ou em pares sempre acompanhada de palmas e gestos alegres e de uma ginga contagiante. A fila dos homens se separa da fila das mulheres e ao final os dois grupos se juntam formando um só grupo." (parte da apostila do Curso de Formação em Folclore Árabe com Melinda James, realizado em Nova Friburgo em 2012) Os gestos dançados dizem respeito ao cotidiano daquele povo.






Nos palcos:








sexta-feira, 21 de junho de 2013

Melea laff ou Dança com Véu Enrolado


História e Origem
Meleah
ou melaya significa pedaço de tecido. Melea sereer significa lençol ou colcha de cama. Melea laff significa pedaço de tecido enrolado ou lenço enrolado.
No século XIX e início do século XX, era um traje tradicional muito usado pelas mulheres no Egito, independente de classe social.
Nos grandes centros urbanos do Egito, como Cairo e Alexandria, esse véu era quase que obrigatório, fazendo parte da moda. Consistia em um véu preto, feito com material não-transparente (geralmente tecido grosso, escuro e pesado), enrolado ao corpo, da cabeça aos pés, como sinal de respeito e dignidade. O manto era usado principalmente quando as mulheres saíam.
Apesar de o lenço esconder o corpo, seu maior atrativo era a revelação das curvas do quadril e da cintura feita pelo tecido enrolado bem apertado em redor do corpo. Isso é bastante universal e fácil de entender: em todo o mundo os homens são fascinados pela maneira como a mulher se veste para ir à rua. Quando a moça passa por um grupo de rapazes, mesmo discretamente, recebe olhares curiosos por muitos motivos.
Um acompanhamento usual desse traje era a burka, um véu tricotado com amplos buracos, que acrescentavam mistério ao rosto, em vez de cobri-lo.
Hoje em dia, muitas mulheres baladi (do povo) ainda o usam, mas tal costume está gradualmente caindo em desuso e praticamente desapareceu das ruas do Egito.
Cairo e Alexandria
São as duas principais cidades do Egito em termos de difusão cultural.
Cairo é a porta de entrada dos viajantes europeus. Abriga o árabe islâmico, sério, internacional e intelectual. É dominada pelo rio e pelo deserto.
Alexandria é a capital de verão. Recebe o apreciador levantino, cosmopolita, sinuoso e volúvel. O vento e o mar a dominam.
À primeira vista inútil, tal dissecção ajuda a entender a influência dos fatores geográficos e culturais na formação da personalidade dos habitantes dessas cidades e, conseqüentemente, permite identificar dois estilos distintos de manifestação popular na dança.
Na década de 40, Alexandria era a principal cidade de veraneio do Egito. Os turistas eram atraídos pelas praias e pelos balneários elegantes. Nessa época o melea estava na moda e compunha o vestuário das mulheres, mas o clima quente obrigavam-nas a usar vestidos leves e o lenço deveria protegê-las de olhares maliciosos.
O Cairo era a cidade de disseminação cultural e social. Os grandes eventos ocorriam em suas ruas e nas casas de espetáculo.
O universo feminino do Cairo é superficialmente fragmentado em três facetas: a bint al-balad, a falaha e a bint al-zawat. A classificação dessas mulheres busca tão somente didatizar o entendimento do perfil de cada uma delas.
As banat al-zawat são as aristocratas, da classe alta, e são consideradas pelas banat al-balad como vulgares, tolas, fúteis e ocidentalizadas, consideram que aquelas não têm tanta honra quanto essas.
As falahin são do interior e são consideradas pelas banat al-balad como caipiras, lerdas, brutas.
As banat al-balad (filhas da terra), plural de bint al-balad, são mulheres que moram nas regiões mais antigas do Cairo, guardiãs da tradição daquela subcultura. A mulher bint al-balad usa o melea laff supostamente para se cobrir, entretanto o lenço se torna instrumento para um jogo de sedução bem inocente, pois as mulheres baladi são rigorosas quando o assunto é moral.
Figurino e Utilização de Cores
A ascenção do novo egípcio urbano de classe média chamado efendia, primeira geração de origem rural que teve acesso às vantagens da expansão educacional e oportunidades de emprego, fez com que o uso da galabia (vestido feminino) e o tarbush (chapéu masculino) fossem substituídos por roupas ocidentais, que emergiram como um marco do Cairo civilizado.
Como a galabia era a roupa das camponesas (falahin), uma egípcia citadina não poderia mais usar roupas tradicionais do interior do Egito, entretanto a classe trabalhadora não mudou seu jeito de vestir.
Hoje, as variações do tradicional e do moderno são encontradas nos grandes centros do Egito, onde a população se mistura com seus vários hábitos e atitudes revelados por meio da moda usada no dia-a-dia. Nas ruas do Cairo podemos ver beduínos do deserto do Sinai ou os núbios, com um forte senso de identidade regional, usando seus tobes brancos e turbantes. A mulher núbia, assim como a mulher do alto Egito ou said, tradicionalmente usa preto.
A bint al-balad é reconhecida não apenas pelo melea laff, mas também pela maneira bastante atrativa com que o veste. O melea é enrolado de maneira tal que o diafragma e os quadris são particularmente marcados para mostrar a beleza da figura. Pode-se também mostrar um braço nu enquanto o outro permanece coberto.
Compõem o figurino da mulher baladi: um manto preto (o melea); a burka; vestido;
Outros acessórios completam a figura da bint al-baladi: lenço de cabeça; sandália com ou sem salto, ou tamancos; jóias de ouro; kohl.
O lenço possui um tamanho grande feito em tecido grosso e pesado, que pode ser ou não bordado. É geralmente usado dobrado durante a dança. O tecido pode ser crepe chanel, crepe madame ou cetim, que é mais leve. Para o palco o melea geralmente recebe bordado com medalhas douradas ou prateadas.
Um tradicional acompanhamento desse traje é uma espécie de shador (burka) feito em crochê reto de cor preta, com amplos buracos que, em vez de cobrir, acrescentam mistério ao rosto. É diferente dos shadores tradicionais, que escondem totalmente o rosto. A burka é de uso opcional.
O vestido é feito num corte justo e curto. Geralmente na altura dos joelhos, com babados no decote e na barra. Pode ser confeccionado em tecido estampado, sem brilho ou em tecido brilhante e colorido, cortado de modo atrativo, meio aberto, meio fechado, mais indiscreto. Usualmente pode ter um corte chamado low-cut decolleté, que é um corte na parte de baixo do vestido, transpassado ou não. Algumas vezes é ornado com fitas que o fecham ou uma linha de botões que são mantidos parcialmente abertos. Remetem às roupas usadas no dia-a-dia.
Pode-se usar a galabia, numa remissão às roupas tradicionais, confeccionada em cores vibrantes e brilhosas, ajustada ao corpo.
O lenço de cabeça é obrigatório. Feito na cor branca ou brilhante, é ornado nas pontas com grandes flores que pendem como uma franja, ou com pompons feitos de lã, ou triângulos de crochê e canutilhos. Pode-se usar no lugar do lenço uma tiara de flores.
A utilização de tamancos visa pontuar o andar com atraentes toc-tocs. Quando é utilizada sandália, uma tornozeleira marca o caminhar da bint al-balad.
São utilizadas muitas jóias de ouro como brincos, braceletes, pulseiras, anéis e colares etc.
O khol é um tipo de tintura preta ou marrom, que era utilizado como proteção dos olhos contra o sol forte e como desinfetante natural. Por extensão passou para o uso cosmético, especificamente a maquiagem, e embelezador. No antigo Egito possuía também conotações religiosas. Ele é embalado em pequenos frascos de vidros.
Cabe aqui destacar:
a) a mini-saia, que, nos últimos tempos, tem sido empregada no figurino de mela laff não é um traje tradicional. Uma vez que as banat al-balad não permitem comportamento tão avançado! A moça que tenta ser moderna com relação à vestimenta é tratada como se fosse um alienígena. A indignação da bint al-balad é tanta que chega a gestos como jogar no chão a bolsa ou objetos segurados pela jovem, fazendo-a abaixar-se e expor-se ao ridículo;
b) o chiclete, que é mascado durante a dança, trata-se de doce de goma árabe.
Dança
Apesar de dançar profissionalmente não ser considerado certo, as mulheres encontraram uma maneira de realçar suas danças nas ocasiões festivas e comemorações. As mulheres de aldeia do Egito já tinham iniciado essa tradição séculos antes, quando um simples lenço para ombros ou quadril era usado para enfeitar as danças nas festas familiares para mulheres ou nos encontros exclusivamente femininos. O progressivo enrolar e desenrolar do xale, jogando-o ora nos braços, ora nos ombros, tornou-se a base para uma dança ágil, marcada e bastante vibrante.
Melea laff raks
significa dança do lenço enrolado.
A dança com melea laff é realizada pelas mulheres baladi. Refere-se à dança baladi.
Esta dança é vista somente em festividades nos distritos bem rurais e aos poucos está desaparecendo do meio da cultura do povo. Atualmente, no Egito é considerada brega.
Possue uma malícia ingênua. É concomitatemente sensual e satírica. A mulher sabe que está provocando.
A dança com melea representa a dança misteriosa mais usada para o flerte. Começava-se a dançar lentamente com o melea laff, como um instrumento de sedução, alternando o "esconde-mostra" do corpo para criar um tipo de dança provocante, ainda que totalmente coberta. Dessa maneira era propiciado um clima de grande sensualidade, ousadia, descontração e até mesmo exagero, pois vão-se revelando partes do corpo durante movimentos considerados bastante sensuais.
A dança com o melea transportada para o palco obedece à realidade do cotidiano. Busca retratar uma personagem famosa da cultura egípcia que usa seu famoso manto preto: a mulher dos subúrbios das cidades de Alexandria e do Cairo, os dois centros mais importantes do Egito.
De acordo com a separação feita a respeito do espírito dos cidadãos do Cairo e de Alexandria, pode-se afirmar que há uma tênue distinção entre o melea de cada uma dessas cidades.
Melea laff
de Alexandria
Também chamada de Skandarani ou Skendereia (significa proveniente de Alexandria), esta é uma dança de flerte, que fala da vida dos pescadores.
Como Alexandria é uma cidade portuária, a mulher é retratada como sendo forte, ligada ao mar. Ela espera pelo marinheiro dos seus sonhos ou pelo que está no mar trabalhando.
Normalmente na Skandarani aparecem bailarinos com trajes representando pescadores e que interagem com a bailarina.
Melea laff
do Cairo
A cidade do Cairo é moderna, agitada. As mulheres são um pouco mais liberais. Elas freqüentam o mercado da Khan el Khalili. A mulher suburbana usa shador para cobrir o rosto.
A melea está localizada na periferia, nos subúrbios do Cairo. Essa dança é definida como engraçada e fanfarrona. A mulher é debochada. A música é um hit parade, sucessos que fervem nos nightclubs, nas ruas e nas rádios. Usualmente um pop baladi (se é que podemos chamá-lo assim!) nas vozes de Hakim, Ihab Toufiq ou Amir Diab. Ao assistirmos a um tablot de melea no Cairo podemos identificar esses elementos.
A descrição didática visa facilitar o entendimento da personalidade e da expressão das mulheres de uma e de outra cidade.
Essas características (comportamento, modo de vida e estética) foram adaptadas, no final do século XX, por Fifi Abdo, uma das primeiras bailarinas a colocá-la em seu show solo, especificamente numa apresentação na praça de Azbakia, no Egito. Trata-se de um de seus mais famosos shows televisionados (no qual ela faz uma entrada em um guindaste).
Depois dela, a melea imediatamente foi incluída na rotina de dança de várias bailarinas que se apresentam em shows de casas noturnas e de alguns hotéis. É bastante apreciada pela platéia.

Performance
, Teatralização
O véu é um acessório como os snujs, o pandeiro, a espada etc. É necessário usá-lo como um recurso teatral.
Uma apresentação de melea laff é sempre uma encenação, uma performance, uma teatralização.
A mulher baladi com melea laff tornou-se um personagem advindo da necessidade de se criar algo novo. Por esse motivo não são conhecidos códigos reguladores para se dançar a melea.
Pode-se dançar a melea: sozinha; com um parceiro; em grupo.
As mulheres estão às vezes sozinhas, devido à ausência do marido que pesca mar a dentro por várias semanas. Algumas apresentações são de duetos, a bailarina dança com um homem (marinheiro ou pescador) que pode ser um pretendente ou o marido que retornou da pesca.
A mulher baladi é convencida, sabe o que quer. Suburbana, é desaforada, debochada. Em grupo, geralmente as mulheres estão acompanhadas pelas amigas e/ou rivais. A rivalidade é expressa por cenas de briga, que estão ligadas à soltura do melea, ao agarrar dos cabelos e aos xingamentos.
Mahmoud Reda, famoso coreógrafo egípcio e criador do Grupo Reda, na década de sessenta, pela primeira vez apresentou essa fórmula no palco: a interação das pessoas com o mar (representado fisicamente por um longo véu) e o flerte sutil entre os grupos masculino e feminino. As bailarinas deixavam o palco para soltar o melea, retornando rapidamente, enquanto os moços exibiam suas armas. Eram esquetes sobre a Alexandria.
No Brasil
Em 1998, Soraia Zaied, em seu vídeo didático sobre folclore egípcio, forneceu a primeira definição, ainda incipiente, do que era tão comum para o povo egípcio. Dessa forma, iniciou-se um despertamento para buscar entender a personalidade e a expressão cultural do povo do Egito.

Música e Ritmo
Seguindo a premissa de que uma apresentação de melea laff é sempre uma encenação, uma performance, uma teatralização, não podemos estabelecer modelos fixos ou padrões rígidos.
O mesmo vale para a música e o ritmo utilizados.
O que pode-se fazer é estabelecer parâmetros a serem seguidos, mas que não chegam a ser rigorosos.
A música pode ser a tradicional, que fala de amores exarcebados, ou a moderna (popular), que canta o cotidiano e os sentimentos como amor e alegria.
Em algumas fontes consultadas, o ritmo aconselhado foi o fallahi ou malfuf num modo mais acelerado, entretanto como a dança está ligada às mulheres baladi e refere-se à dança baladi, seria oportuno aplicar o uso do baladi ou do maksoum, ritmos considerados mais populares e mais alegres.
COREOGRAFIA E GESTUAL ENVOLVIDO
No Oriente Médio, a melea laff faz parte integral do baladi egípcio.
Nos registros em vídeo, a bint al-balad aparece solteira em busca de um marido e ao lado de várias amigas. Ela gosta de sair para fazer compras e, assim, tem oportunidade para flertar com os rapazes.
Baseando-se nessas informações, a melea laff foi desenvolvida como uma dança que obedece à linguagem delicada do flerte, usada para paquera, para conseguir um marido. O tecido é usado cobrindo e descobrindo o corpo, criando um tipo de dança misteriosa, provocante e sedutora, ainda que totalmente coberta.
Para montar um número de melea laff é importante conhecer os traços marcantes da personalidade da mulher baladi, de modo geral, e da de Alexandria e do Cairo, em particular.
É bem típico dessa mulher: ser alegre, simples e brejeira; gesticular muito ao falar; balançar os seios e a cabeça.
Não é muito delicada na sua maneira de ser, ao contrário é bastante exagerada nos gestos.
Na realidade, ela gosta também de brigar e falar alto para impor suas idéias. É muito comum ver acontecer corriqueiramente nas ruas do Egito uma luta chamada Rad-h, envolvendo essas mulheres em uma discussão que, quase sempre termina em agressão física.
Melea laff
de Alexandria
As moças da cidade de Alexandria são conhecidas e admiradas em todo o país por sua beleza, charme e força. Independentes, costumam andar sozinhas, devido à ausência prolongada dos homens locais por motivos de trabalho. Elas devem se defender dos turistas que invadem suas praias em busca de diversão. É muito comum um homem atrevido receber golpes de tamanco ou de lenço, caso a moça se sinta ofendida com um gracejo inconveniente.
Talvez, por isso a melea da Alexandria seja mais discreta e o lenço é trabalhado mais cuidadosamente.
As músicas geralmente apresentam um momento especial para a dança masculina de Port Said (outra cidade litorânea do Egito). Uma espécie de disputa com punhais a fim de demonstrar virilidade e habilidade marcial. As letras traçam um retrato do cotidiano dessas pessoas e geralmente falam do mar. São exemplos, Benet baharei (filhas do mar) e Benet skanderia (Filhas da Alexandria).
Melea laff
do Cairo
As baladis do Cairo, ao saírem às ruas, andam coquetemente, de tal modo que seus quadris parecem rolar e balançar ao ritmo do som de suas sandálias ou tamancos, de seus braceletes e dos pequenos plocs das bolas de gomas de mascar. Apesar da expectativa de que o melea sirva para escondê-las da cobiça de olhares mais impertinentes, ele é usualmente deixado frouxo o suficiente para escorregar, bem como o lenço de cabelo. Assim a bint al-balad terá que parar no meio da rua, tirar e reamarrar o lenço de cabeça e re-enrolar o tecido em volta de seu corpo, performando, com isso, uma série de gestos fascinantes que certamente atraem a atenção dos transeuntes.
Esses movimentos foram a fonte para estruturar o jeito de dançar uma melea do Cairo: caminha, pára, arruma o lenço de cabelo, enrola o melea, caminha, e assim sucessivamente.
De modo geral, os pés devem estar totalmente no chão, pois é uma representação de personagens do povo de uma forma simples. Os movimentos de quadril são pesados, ainda que graciosos e saltitantes.
Como não há um repertório rígido de passos, pode-se agregar elementos de várias culturas como a brasileira, desde o samba, o axé, o carimbó, o sertanejo até o forró.
A bailarina entra, sem pedir licença, enrolada num lenço preto que de vez em quando é aberto e deixa vislumbrar o fascinante movimento que seus quadris provocam no vestido brilhante e tremeluzente.
O lenço pode ser: deslizado intencionalmente durante a dança e então novamente rearrumado no corpo; apoiado nos braços; envolvido na parte de trás dos braços, antagonizando-se a eles; girado no ar; rodado alternadamente (as pontas); amarrado ao quadril, reproduzindo as mulheres locais na realização de suas tarefas domésticas; e jogado de lado, afinal não há preocupação em exibir o corpo nesse contexto.
É necessário à bailarina que: seja extremamente carismática, muito charmosa e graciosa; realize brincadeiras e gracejos; saiba enrolar, desenrolar e manusear o véu de maneira correta; simule um flerte com seu público.
Para compor o jogo cênico de uma dança com melea, pode-se: fumar a tradicional shisha; bater os saltos dos tamancos juntos; rebolar de forma provocante; usar shador ou burka (feito em crochê) para cobrir o rosto na entrada e depois dispensá-lo, ou permanecer com ele até o final; mascar chicletes ou doce de goma; falar palavras soltas em árabe no meio da música ou cantar junto (recomendado para que tem conhecimento da língua ou pelos menos da letra da música em questão); emitir zagreeta (tradicional grito de exaltação da cultura oriental); simular uma cena de briga ou luta entre mulheres.
Diante dos dados oferecidos até agora, talvez seja mais fácil entrar no espírito da melea laff, uma dança que obedece à linguagem delicada do flerte e aos códigos mais que especiais.

Melea laff
e folclore
Nos últimos tempos tem havido uma discussão a respeito de a dança com melea laff ser ou não folclórica.
De acordo com o Dicionário Houaiss de língua portuguesa, folclore trata do conjunto de costumes tradicionais, crenças, superstições, cantos, festas, indumentárias, lendas, provérbios, manifestações artísticas em geral, preservado, através da tradição oral, no seio de um povo ou grupo populacional.
Recentemente, algumas bailarinas têm divulgado a idéia de que seria uma dança tradicional egípcia, entretanto Rossam Hamzy, famoso percussionista egípcio, afirma que não há nenhuma dança tradicional de melea laff e que, portanto, não se trata de uma manifestação folclórica.
É claro que, devido às exigências de sempre se apresentar algo novo nos shows, a melea laff foi utilizada como uma encenação, uma performance, uma teatralização, e a mulher baladi com o melea tornou-se o personagem principal dessa peça.
Diante do fato de o melea, aqui descrito como um tipo de roupa, estar gradualmente caindo em desuso e praticamente desaparecer de algumas cidades do Egito, e de a melea laff ser somente vista em festividades nos distritos bem rurais (interior) e estar aos poucos se extinguindo do meio da cultura do povo, não é ousado ou errôneo afirmar que a dança com o véu enrolado já alcançou o patamar de dança folclórica.
É folclore porque representa, de uma forma simples, personagens ligados à raiz e à expressão cultural do povo egípcio.
Referências
DANÇAS folclóricas. Revista Khan el Khalili: a arte da dança do ventre, São Paulo, n. 3, p. 4-5, 2001.
DEVADASI. Melaya laff. http://devadasi.multiply.com/journal. Acessado em: 6-7-2007
http://mahaylahzambak.art.br/cultura.htm. Acessado em: 9-8-2007
http://miragebellydance.ca/med_styles.html. Acessado em: 9-8-2007
http://paginas.terra.com.br/arte/kareemah/hp/Artigos/estilos_danca.htm. Acessado em: 9-8-2007
http://www.geocities.com/egyptology2000/ventre2.html. Acessado em: 9-8-2007
http://www.jade.art.br/dance_folc.htm. Acessado em: 9-8-2007
http://www.kashmir.com.br/dancadoventre.htm. Acessado em: 9-8-2007
http://www.magiaoriental.com/glossario.htm. Acessado em: 9-8-2007
http://www.sorayasaad.hpg.ig.com.br/Origem.html. Acessado em: 9-8-2007
JU, Samya. Brevíssima história do meleah laff. http://www.khanelkhalili.com.br/
artigos/dancadoventreartigos002.htm. Acessado em: 3-8-2004.
Meleah laff: mensagens remetidas para lista. In: CUNHA, Paula. Lista de debates sobre danças e dança do ventre. http://br.groups.yahoo.com/group/dancadancadoventre. Acessado em: 3-8-2004.
MESSIRI, Sawsan el. Self-images of traditional urban women in Cairo. In: BECK, Lois & KEDDIE, Nikki (ed.). Women in the muslin world. Cambridge and London: Harvard Univ. Press, 1978.
NAJLA, Nanda. Melea-laff. http://www.nandanajla.com/nandanajla/danca.htm. Acessado em: 9-8-2007
NUR, Dani. Folclore: exposição oral -- anotações de aula, 15 abr. 2007.
PAIVA, Luz. Melea laff: anotações de apresentação de aula. 23 set. 2006.
RAMZY, Hossam. Melaya laff. http://www.hossamramzy.com/bbs/messages/
272.html. Acessado em: 13-8-2007.
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Texto disponível em vários sites e blogs, com pessoas diferentes assumindo a sua autoria. O acessei em: http://www.webartigos.com/artigos/melea-laff-ou-danca-com-veu-enrolado/18664/#ixzz2WuH6BxCE, no dia 21 de junho de 2013 e compartilho com vocês por ser um texto de muita qualidade!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dabke

O Dabke faz parte do folclore libanês. É uma dança executada por homens, mulheres, casais e crianças. A palavra “Dabke” significa “bater no chão com o pé”. Esta é a origem da dança: ato de amassar o barro ao lado da comunidade e de cantar e alegrar-se com o trabalho.
Em tempos antigos, antes de forros estáveis serem instalados nos lares Libaneses. Seus forros planos eram feitos de galhos de árvores que eram tapados com barro.Quando vinha a mudança de estação, especialmente o inverno, o barro iria rachar e iriam começar as goteiras, o que tornava necessário o conserto. O dono da casa iria chamar seus vizinhos para ajuda- Al-Awneh- e os vizinhos iriam subir no forro. Eles seguravam as mãos, formavam uma linha e começavam a bater os pés enquanto caminhavam sobre o forro com a finalidade de ajustar o barro.
Depois de um tempo, Al-Awneh, ficou conhecido como Dalunah, uma forma improvisada de Dabke cantado e dançado, que é hoje a base de todos os dabkes, sobre a qual se desenvolvem o canto e as evoluções. Um derbake (tambor feito com cilindro de argila sobre o qual é esticada uma pele de cobra), nay (flauta longa de bambu) e um mijwiz (flauta embarrilhada dupla de alta diapasão) foram adicionados para manter os homens trabalhando no tempo frio - isso estimulava maior energia pela pressão sanguínea. Com o tempo a dança Dabke se tornou uma das tradições Libanesas mais famosas.
O dabke é constituído de uma longa fila, em que todos executam os mesmos passos. Na ponta, ficam dançarinos mais hábeis, que realizam evoluções arrojadas. Os adereços usados não são muitos. O masbaha é um deles – compõe-se de um colar de contas – que é girado por quem está “puxando” o dabke.
O folclore libanês possui grande variedade de passos com movimentos básico, intermediários e avançados. Porém, seu passo básico é relativamente simples com contagem de quatro passos, sendo que o quarto é uma batida do pé no chão. Além dos passos soltos, existem movimentos e passos tradicionais para se dançar sozinha, em casais ou em grupos. Alguns dos passos são originários dos passos tradicionais do Dabke Baalbakiye e Bedáuiye e que são muito utilizados na montagem de coreografias.
Um dos rítmos mais utilizados para se dançar é o jabalee. 
As roupas das mulheres são bastante coloridas. Elas podem usar somente vestidos (Jalabiye ou Aabaye) ou vestidos acima de calças. Usam lenços ou xales amarrados na cintura, bijuterias e sapatos com salto médio, adequados para dança. Na cabeça elas colocam véus com faixas. Algumas vezes, usam cestos de palhas ou jarros na cabeça para executar coreografias.
Os homens usam o cherwél (calça larga tradicional) com vestimentas coloridas sobre suas camisas e botas. Eles usam ainda coletes de cores variadas para compor o conjunto com uma faixa vermelha que é colocada na cintura. Na cabeça os homens usam o tarbuch (chapéu típico, cônico, avermelhado conhecido em vários países como “Fez”), com uma faixa amarrada junto a testa. Também é comum homens dançarem sem nada na cabeça ou então com o aaguél ua kaffiye (turbante)
Há dois tipos de Dabke: O popular, no qual se repetem os mesmos passos, normalmente dançado em festas. Ainda hoje é possível encontrar, no interior do Líbano, nas aldeias mais afastadas, essa dança folclórica bastante pura e preservada. E o Dabke coreografado, que agrega passos libaneses, sírios, palestinos, egípcios, etc.
Vários grupos e festivais retomaram a antiga dança profissionalmente, a partir dos anos 1960. É o caso da companhia teatral Anwar, fundada por Wadiha Jarrat, muito famosa em todo o Oriente e que estabeleceu um padrão de excelência para o dakbe.
Wadiha Jarrat era capaz de recrutar um grande número de dançarinos que ela usava durante festivais chamados Baalbek. Eram filas espetaculares de homens mulheres que davam as mãos e avançavam em direção a platéia, os pés batendo no chão em uníssono, levando os teatros abaixo e gerando irreprimível entusiasmo entre a audiência.
Jarrat colaborou com os irmãos Rahbani e Fairuz, a diva contemporânea mais venerada no Líbano, criando a Opereta Libanesa, baseada em lendas folclóricas daquele país.
Graças a esse renascimento, atualmente escolas de todo o Líbano ensinam o dabke aos seus alunos. Pequenas companhias apresentam-se por todo o país, quanto clubes locais realizam o chamado “Jantar de Aldeia”, que acontece anualmente em agosto.

Bibliografia:
 DABKE, disponível em http://www.kfs10.com.br/loubnan/dabke.html
DABKE - Uma festa em qualquer lugar do mundo!, disponível em http://www.shangrilahouse.com.br

















A Dança do Vilarejo Libanês


Texto muito agradável, sobre, no cotidiano de um vilarejo libanês, a formação de uma roda de Dabke. A escrita do texto nos faz viajar rumo ao ambiente bucólico descrito.

“A Dança do Vilarejo Libanês
Imagine-se andando numa Vila cheia de pessegueiras, macieiras e plantações de Uva, e sentindo o aroma da colheita de meio de Setembro. Isso, meus amigos, é um vilarejo encontrado no Líbano seguindo as tradições que seus ancestrais deixaram.
Vilarejos Libaneses são famosos por muitas de suas tradições ancestrais e com honra as carregam de geração para geração. Muito disso consiste da cooperação da família e neste caso toda a Vila se torna uma FAMILIA.
No meio de Setembro, familias se encontram nos seus campos, para celebrar a temporada de colheita do Vinho. As uvas colhidas das Parreiras foram separadas, algumas para fazer Arak , algumas para Vinho, outras para Vinagre e o resto para fazer doces de Uvas. O ar está tomado pelo delicioso aroma do suco de Uva que está sendo aquecido ao fogo. Algumas mulheres recheiam suas belas travessas com tabouleh, hummus, babaghanouj, folhas de uva e uma coleção de petiscos, frutas, e pães. Outras andando balançam seus jarros de água sobre as cabeças com elegancia. Os jovens rapazes e moças, vestindo roupas festivas, vão com suas mães conhecer os membros mais velhos de sua familia nos campos. as jovens mulheres estão vestidas em esvoaçantes calças e camisas e longas vestimentas; véus e lenços com bela decoração e adornos nas cabeças. Os homens estão vestindo seus sherwals e labbadeh (calças largas e chapéus típicos) com vestimentas coloridas sobre suas camisas e botas.
Um homem idoso entra em cena carregando um derbake(um pequeno tambor feito de um cilindro de madeira e pele de carneiro esticada), seguido de uma turma de outros com seus nay e mijwiz (o nay é uma flauta de bambu simples longo e o mijwiz é uma flauta dupla mais curta).
A musica começa a tocar, e a brisa fresca da tarde de Setembro está em todo lugar. Alguns homens e mulheres seguram as mãos e começam a dançar para a entonação Dalunah, a base de todos os Dabkes (para bater no chão com um dos pés), enquanto outros batem palmas criando o ritmo apropriado. Então se abre caminho para o canto improvisado; uma mulher entra em cena com um jarro balançando sobre sua cabeça e é seguida por outras, como que competindo. Então os homens tomam parte com suas espadas, fazendo a dança da espada para o ritmo do mijwiz. Conforme o tempo vai passando, os mais velhos vêm participar também, segurando as mãos com os mais jovens formando uma linha unitiva e fazendo o mesmo passo. O homem e mulher nas estremidades opostas da linha fazem passos diferentes para mostrarem quão competentes, ágeis e graciosos eles são. O resto da turma bate palma e canta para revelar sua felicidade.
Um homem idoso chama e anuncia que o suco de Uva já esquentou e já esfriou, eles podem bebe-lo. Aqui a atmosfera está recheada com ululação para os homens responsáveis pelo suco e para as mulheres que preparam a comida. E conforme a ululação continua o tempo do Dabke aumenta.
Felizmente, de todas as tradições libanesas essa cena não morreu, especialmente nos Vilarejos.O Dabke é uma dança nacional Libanesa que é levada em todo Clube, restaurante, ou festa.”
 

domingo, 4 de março de 2012

Tahtib e Said


O uso do bastão faz parte da dança "tahtib", e este instrumento, que hoje é usado como forma de adorno ou para demonstrar habilidades, símbolo de virilidade entres os homens, também serviu em tempos remotos como arma de defesa e ataque nas lutas e combates.
O estilo feminino conhecido pelo nome Saidi ("Dança do bastão") nasceu a partir de pesquisas de campo de Mahmoud Reda, sendo inspirado por um jogo marcial típico chamado Tahtib (essencialmente masculino), em que homens, com seus longos bastões, simulam uma luta dançada, demonstrando habilidade, e destreza, assim como habilidades surpreendentes num ataque mais do que harmônico. Nele algumas partes do corpo valem mais pontos do que outras e, quando um participante é atingido em seu ponto mais vulnerável, perde a batalha. Podem existir pequenas diferenças de estilo dependendo da cidade. Mahmoud Reda foi tão específico em seu estudo que um egípcio, sentado na platéia, poderia perceber, através destes detalhes tão peculiares, a que região de seu país pertencia o que estava sendo apresentado no palco!
Mais tarde desenvolveu-se uma performance de Saidi para grupos mistos, na qual homens e mulheres dividiam o palco. Diferentemente dos homens, quando as mulheres utilizavam os bastões seus movimentos eram mais suaves e delicados demonstrando claramente a diferença entre os dois. No contexto de folclore a dança saidi mostra grupos masculinos e femininos, inicialmente separados para depois formarem casais. Como uma espécie de “quadrilha” das nossas festas juninas.
O tahtib pode ser dançando com um ou dois bastões sendo eles de preferência retos e maciços. Os bastões originais são  pesados por serem feitos de cana egípcia, uma espécie de cana reino. Porém, atualmente temos encontrado bastões feitos em taquara ou bambu, mais leves para o manuseio
O figurino dos homens é composto por galabeya (”camisolão”), tae'ya (“chapeuzinho”) e lessa (lenço que prende a tae'ya). Para mulheres a galabeya tem longas mangas e um cinto marcando o quadril. O cabelo é coberto por um longo lenço negro. O vestido das mulheres é totalmente coberto e muito bem comportado, podendo ter atrás um bordado típico em formas de meias luas, que remete exatamente as suas origens, como sendo habitantes do campo. Esse formato, que lembra as luas, é comum em jóias oferecidas como dote de casamento nas regiões rurais. Então o motivo aparecendo nas roupas é uma clara alusão ao grupo a que esta manifestação artística remete.  
Os instrumentos típicos para o Said são o Tabla (instrumento de percussão, parecido com um grande tambor), o Mizmar (instrumento folclórico de sopro) e o Rebaba (viola de uma ou duas cordas tocadas com um arco feito de crina).
Os principais movimentos com o bastão são: os giros verticais, horizontais e transversais sempre em harmonia com o trabalho dos giros, deslocamentos e etc... Requer muita habilidade do bailarino. A precisão e a destreza são fundamentais contrastando com alguns movimentos brutos.
Já na dança do ventre - ou seja em apresentações solo - a bailarina representa uma mulher saidi diferente. Ela toma o bastão, instrumento masculino, demonstrando habilidade, força e muita coragem. Como se, de maneira brincalhona ela desafiasse as tradições dizendo "eu também posso". Os passos típicos exigem muita ginga e “pulinhos” graciosos, o quadril é forte e preciso. As mãos e braços apresentam desenhos simples muito diferentes da dança clássica, parecendo sugerir uma dança mais rústica, porém igualmente graciosa. O uso do bastão pelas mulheres pode possuir um efeito figurativo: ao desarmar o homem, tomando o seu bastão, a mulher egípcia demonstra sua graça e habilidade, pretendendo igualar-se ao companheiro. Uma das primeiras bailarinas a dançar com o bastão foi Fifi Abdo.
Nesse território quase tudo é permitido, afinal temos "licença poética" como bailarinas e interpretamos o que consideramos mais interessante para nosso show. O número de saidi é um momento ímpar na apresentação e oferece muitas possibilidades de interação do público. A música é forte e parece acordar a percepção: a flauta mizmar lembra-nos imediatamente de que se trata do Egito e a percussão cadenciada marca sua origem africana.
Coreógrafos respeitáveis como Mahmoud Reda definem saidi como a dança que tem origem em três cidades do Alto Egito: Luxor, Assuan e Qena. Entendemos que observando a dança popular dessa região criou-se uma dança folclórica representando a personalidade e o cotidiano desses habitantes.
Consideram-se adequados para esta dança os ritmos folclóricos Said  puro ou said+baladi seguido do maqsound, malfuf.
Atenção! O bastão não é o elemento peculiar que caracteriza uma dança como saidi. Também encontramos no conjunto chamado de baladi egípcio e libanês diferentes danças com bastão, de acordo com o que se quer representar (região, costumes, povo). Portanto, observe mais elementos para desenvolver sua apresentação enriquecendo assim seu estudo.

Bibliografia:
Samya Ju, Tahtib e Said, disponível em:  http://biancaegama.multiply.com/journal/item/7/Tahtib_e_Said, acessado em 03de março de 2012
Anthar Lacerda, Apostila de Folclore Árabe


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A exemplar história de Mahmoud Reda e sua Trupe



Não podemos falar da dança no Egito nos últimos 50 anos sem falar do Grupo Reda. Esse grupo provocou grande impacto no Egito em seus aspectos artístico, social e cultural, com suas elaborações coreográficas inovadoras e criativas que se propuseram a levar ao palco o folclore egípcio de forma adaptada aos espetáculos.
O Grupo Reda começou como uma questão de família. Os Redas e Fahmys foram reunidos através do casamento - de Mahmoud Reda e Nadeeda Fahmy, irmã de Farida e mais tarde o casamento desta com Ali Reda, irmão de Mahmoud. Ambas as famílias tinham interesses em comum pela dança e tradição e cultura Egípcias. O sonho de Mahmoud Reda em apresentar um novo gênero de dança e forte desejo de Farida Fahmy por dançar foram o catalisador para uma bem sucedida e satisfatória empresa  artística. Mahmoud Reda foi bailarino principal até 1972. Ele ensinou os dançarinos e coreografava e dirigia todas as performances de palco. Com suas coreografias inovadoras, criou um gênero de dança que misturava vários estilos. Farida Fahmy foi bailarina principal por 25 anos. Ela era um modelo para os bailarinos contratados, e sua graça e elegância logo conquistaram os corações dos egípcios.
Mahmoud Reda
Mahmoud Reda nasceu no Cairo em 1930 em uma grande família de classe média. Seu pai foi autor e bibliotecário-chefe na Universidade do Cairo e, com sua esposa, teve uma família que estava imersa em sua herança cultural e em sintonia com o modernismo que estava varrendo o Egito na época. Era uma família com inclinação para atletismo e música.
O ambiente em que Mahmoud Reda cresceu foi um instrumento para a promoção de suas tendências artísticas. Foi nadador profissional, tendo desistido da profissão por considerá-la monótona. Mais tarde foi ginasta, tendo sido membro do time de ginástica que representou o Egito nas olimpíadas de 1952 em Helsinki. Nos anos 50, após assistir uma apresentação de uma companhia de dança folclórica Argentina, foi convidado a ser bailarino integrante, tendo viajado por diversos locais dançando com eles. Começou então a pensar a respeito da possibilidade de criar sua própria companhia, apresentando o folclore egípcio.
O frutífero ambiente familiar, os atributos físicos e sua criatividade foram grandes determinantes para sua carreira como bailarino.
Sua primeira esposa, Nadeeda Fahmy inspirou e encorajou Mahmoud Reda para perseguir suas ambições artísticas, e desenhou os figurinos para os primeiros shows da trupe. Os figurinos eram tão inovadores que são, até os dias de hoje, copiados por outras pessoas.
Ali Reda
Ali Reda, irmão de Mahmoud, foi um experiente homem no mundo do show business. Aos 16 anos já ganhava prêmios de dança em competições que eram populares na época, destacando-se em danças como o swing e o jitterbug, tendo sido, por isso, uma grande inspiração para Mahmoud Reda. Mais tarde voltou sua carreira para o cinema.
Nos anos de formação do Grupo Reda, ele atuava como conselheiro artístico e atendia a todos os problemas administrativos e gerenciais.
Dentre outros, dirigiu dois filmes no gênero de comédia musical para o Grupo Reda. Esses filmes são hoje considerados como pedras angulares da história do cinema egípcio, e são mostrados na televisão até os dias atuais.
A experiência anterior de Ali Reda em show business e sua forte personalidade foram fatores importantes no que diz respeito ao desenvolvimento bem sucedido da trupe.
 Uma importante decisão sua foi introduzir a música inovadora e extremamente atraente do Maestro Ali Ismail para o Grupo Reda. Ali Ismail combinou instrumentos ocidentais com instrumentos tradicionais egípcios, e apresentou a música tradicional com uma abordagem nova e fresca. Ele era um trunfo importante para a trupe e logo se tornou um compositor de renome no Egito. Suas composições têm inspirado muitas gerações de músicos egípcios a seguir seus passos.
Farida Fahmy
Seu pai, Hassan Fahmy, professor de engenharia industrial na Universidade do Cairo, era um homem excepcionalmente tolerante, que juntamente com sua esposa, estimulava as tendências artísticas e atividades esportivas de suas filhas. Resistiu às críticas dos anciãos da família e dos círculos acadêmicos quando permitiu que Farida se tonasse bailarina profissional. Assim, ele desempenhou um papel importante na legitimação da situação de dança profissional em um momento em que era considerada uma profissão de má reputação. O incentivo moral da dança de sua filha legitimou sua carreira de bailarina aos olhos dos egípcios e continua sendo, até hoje, um feito extraordinário. Sem dúvida, a sua personalidade carismática, sua posição social, bem como seus pontos de vista tolerantes exerceram uma profunda influência sobre a percepção do público deste esforço.
Farida nasceu em 1940, no Cairo, e por volta dos 18 anos, entrou para uma escola de Ballet. Foi uma das responsáveis por elevar dança e teatro egípcios ao nível das mais conceituadas artes. Seu estilo único, graça e elegância inspiraram gerações de bailarinos, fazendo com que ganhasse a admiração de seu público no Egito e no exterior. Sua dedicação, trabalho duro, disciplina e compromisso com a trupe criaram um modelo que foi imitado por gerações de dançarinos.
Mesmo enquanto atuava no Grupo Reda ela continuou estudando. Recebeu o título de Bacharel em Artes em Literatura Inglesa pela Universidade do Cairo em 1967, e seu título de Mestre em  Artes em Etnologia da Dança, pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. Sua imagem social e carreira artística, juntamente com suas realizações acadêmicas, faz crescer a visão positiva com relação a bailarinas atualmente.
Farida começou a dar aulas e workshops por volta do ano 2000, viajando pela Europa, Estados Unidos e América do Sul.
Reda Troupe
Foi fundada em 6 de agosto de 1959. Farida Fahmy foi a primeira bailarina da trupe.
Os cofundadores do Grupo Reda juntaram seus recursos, e com um orçamento pequeno, apresentaram a primeira performance no mesmo ano. Esta foi feita sem grandes estudos, pois havia pouco tempo para que fosse apresentada. Contava com seis bailarinas, seis bailarinos, e doze músicos. Mahmoud elaborava os shows a partir de historias que criava. Um dos temas foi “A Flauta Mágica”. Neste espetáculo um menino se apaixonava por uma menina fellaha da vila, mas o pai dela não aceitava o romance. Então o menino tocava sua flauta para que o pai ficasse mais suave. Com isso ele dançava com a flauta e terminava por concordar como casamento.
Após o sucesso do primeiro programa, Mahmoud Reda teve tempo para sua pesquisa. Pegou um grupo de 5 ou 6 dançarinas e foi para o Alto Egito estudar o real folclore. Pegou câmeras, gravadores, alguém para escrever... Eles conversavam com as pessoas, anotando histórias, ideias e escrevendo as músicas. Assistiam as danças e gravavam as músicas. Começaram em Aswan e foram até o Cairo. Em cada cidade ficavam cerca de 3 a 4 dias. Após esse estudo, Mahmoud Reda começou a perceber pontos positivos, mas também alguns problemas, no folclore egípcio. Comparou este a um tesouro que ninguém descobriu, mas observou que há muitas repetições, ou nos passos ou na melodia. “Então, você tem um tesouro, mas ao mesmo tempo o material é pequeno. Você não pode pegar um passo e coreografar uma dança de 5 minutos para palco... Quando você assiste a coisa real você fica feliz porque você se une,  você pode cantar com eles,  você pode até mesmo bater palma com eles, então você se sente feliz. Mas se você compra um ingresso para um Teatro, você não espera ver isso... Você não pode pegar uma árvore ou uma casa de seu lugar e colocá-la no palco. Mesmo que você coloque os bailarinos reais no palco eles estranharão, não saberão como se comportar. É melhor você ir até eles, se juntar a eles e ser feliz. Mas no palco é diferente. Então eu digo que minha coreografia não é folclore, mas é inspirada no folclore.” Diz Mahmoud Reda.
Interessante observar a postura de Mahmoud Reda diante dessas novas possibilidades que estava criando. Dizia ele que, embora isto não seja regra, há um risco quando você se inspira a criar sua própria coreografia, pois, quando você muda algo, isso se torna outra coisa, e as pessoas podem não gostar. É preciso usar o seu gosto. E o que torna tão fascinante a criação artística de Reda se evidencia em sua seguinte fala: “Eu pego um passo e me imagino como sendo uma daquelas pessoas. Se eu fosse uma daquelas pessoas e quisesse fazer uma variação daquele passo, o que eu poderia fazer? (...) Então eu faço todas as variações possíveis para aquele passo. É como o desenvolvimento de língua árabe: se você não tiver sorte, então, torna-se Inglês. Não é bom. Se você tiver sorte, vai conseguir manter o espírito apesar das modificações que fez aos movimentos. Eu tive sorte. Então, eu fiz tudo o que pude. Coloquei variações do mesmo passo e ainda assim as pessoas o veem e se reconhecem neles.” (Mahmoud Reda)
Outro ponto digno de atenção a quem se propõe estudar essa história diz respeito ao que inspirava Mahmoud Reda e ao processo de criação em si. Dizia ele que a inspiração “vem do nada”. Se ao dirigir avistasse uma mulher com uma roupa bonita, isso o inspirava; se ouvisse uma história ou alguém contando uma piada, isso também o inspirava... No momento em que criou sua primeira performance não tinha o músico, mas havia ideias, passos e ideias para a coreografia. Havia os bailarinos a quem ensinava. Assim, ele criou quase que a primeira coreografia inteira sem música e quando encontrava alguém que tocava tabla, dizia as contagens e o ritmo para que pudesse prosseguir. Quando Ali Ismail foi apresentado por Ali Reda, Mahmoud o mostrou as danças. Foi quando Ali Ismail escreveu as contagens e começou a compor para a trupe. Houve, porém, algumas dificuldades, já que a contagem musical de um coreógrafo é diferente da contagem de um músico. Com isso foram compostas, inicialmente, músicas além do necessário. Mas a primeira dança foi feita assim: coreografada “primeiro no tabla e depois colocada na música”. Mais tarde, ao se conhecerem melhor, as ideias puderam ser realmente compartilhadas e alguns experimentos com passos puderam ser feitos com os ritmos que recebia de Ali Ismail. Quando terminava a composição ele dava a Mahmoud Reda uma versão gravada no piano, este ouvia, falava sobre ajustes que seriam necessários e utilizava a versão para coreografar. E então, quando Ali Ismail via a coreografia se inspirava para compor mais. Dessa forma, um se inspirava na criação artística do outro e criava mais. No caso de Ali Ismail, criava suas composições não só no piano, mas todo o arranjo. “Quando eu ouvia a orquestra, eu tinha mais ideias, e agora o violino dizia alguma coisa, o derbake dizia algo mais, então eu corrigia meu trabalho e colocava mais ideias. E foi assim. Fomos assim até que se encaixasse.” (Mahmoud Reda)
Dessa forma estes grandes artistas foram agindo de acordo com o que estavam sentindo, de acordo com o que surgia e com o que desejavam criar!
Tanto empenho e criatividade fizeram com que, em meados da década de 70 a trupe contasse com cerca de cento e cinquenta membros, incluindo dançarinos, músicos, figurinistas e técnicos de palco. O repertório da Trupe variava de duetos a danças com mais de trinta bailarinos no palco simultaneamente. O Grupo Reda ganhou notoriedade no Egito e visitou mais de cinquenta países. Apresentou performances de comando no Egito, e em teatros de prestígio no exterior, como The Royal Albert Hall em Londres, Carnegie Hall, em Nova York, Congresso Hall, em Berlim, Olympia Theater, em Paris, Teatro Stanislavsky, em Moscou, Theatro De La Zarzula em Madrid e outros. A trupe também ganhou vários prêmios em festivais de folclore em países como a Áustria, Rússia, Inglaterra, Turquia e Bélgica, entre outros. Os artistas principais, Farida Fahmy, Mahmoud Reda, Ali Reda e Ali Ismail foram condecorados pelo rei Hussein da Jordânia, em 1965, pelo presidente Gamal Abdel Nasser em 1967 por serviços prestados ao Estado através da arte e por Burguiba, Presidente da Tunísia em 1973.
O Grupo Reda fez três filmes: Mid-week Holiday, Love Et The Córner, The Thief of the paper e apresentou mais de trezentos (300) shows, tendo ainda participado em dois filmes musicais: ” Mid year vacation ” e ” Love in Elkarnak.
Mahmoud Reda inspirou muitas pessoas. Chegou a dar aulas para classes de 620 alunas. Levou o folclore egípcio para o palco e foi responsável pela criação de inúmeras coreografias, disseminadas por todo o mundo, dançadas por pessoas de toda parte.
O fim da trupe
A Trupe Reda foi um grupo de dança pioneiro, que pôs em marcha a criação de grupos Folkdance nas províncias, universidades e escolas de todo o Egito. Infelizmente, hoje a Trupe Reda existe apenas no nome. Farida terminou sua carreira de dança em 1983 e continuou seus estudos acadêmicos, recebendo seu título de mestre. Por outro lado - inacreditavelmente - a burocracia do governo já tinha criado muitos obstáculos para frustrar novos desenvolvimentos artísticos, colocando Mahmoud Reda em pensão em 1990. O Grupo Reda foi posteriormente deixada nas mãos de membros da trupe que não possuíam talento ou tendências artísticas ou de direção.
Grande parte dos professores e coreógrafos que surgiram a partir do Grupo Reda, bem como, outros grupos de dança, não produziram quaisquer inovações notáveis ​​até à data, os seus trabalhos só continuaram a perpetuar o estilo Reda, métodos e técnicas e de ensino.

O talento e a criatividade artística dos artistas principais do Grupo Reda trouxeram uma herança de dança teatral que continua a ser uma fonte rica para todos os professores e coreógrafos. Hoje, Farida Fahmy e Mahmoud Reda permanecem na memória coletiva dos egípcios. A memória cheia de admiração e nostalgia.

 “Todo mundo está dançando! Se por alguma razão o Egito parar de dançar – Espero que não! - Todo mundo estará dançando, de qualquer jeito.” (Mahmoud Reda)
Ju Najlah





Bibliografia

MOROCCO, Interview with Mahmoud Reda, disponível em http://www.casbahdance.org/RedaInterview.htm (acessado em 19/02/2012)
FAHMY, Farida, The Founding of the Reda Troupe: An Historical Overview, disponível em http://www.faridafahmy.com/history.html (acessado em 20/02/2012)
About Farida Fahmy, disponível em http://www.faridafahmy.com/about.html (acessado em 26/02/2012)
KLEIN, Cinara, Mahmoud Reda, disponível em http://dudaaeternus.multiply.com/journal/item/20?&show_interstitial=1&u=%2Fjournal%2Fitem (acessado em 26/02/2012)

É preciso transformar a música em dança, num movimento de fora para dentro, mas principalmente, num movimento inverso, externalizar os sentimentos, transparecer a alma, transformar o corpo em música, em dança, em arte. A unidade se faz em todos os sentidos. O seu estilo de dança não será criado. Ele já existe. Basta você abrir espaço para que ele possa surgir. Dance com alma!

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